Por que nos desentendemos tanto?

Por Kaleizu Rosa

Uma das razões que nos leva ao desentendimento é a falta de habilidade no processo mais arcaico que rege a sobrevivência! Quando éramos 6 mil nas savanas africanas, tínhamos tudo para não prosperar. Não éramos os mais fortes, tampouco os mais rápidos, nem os mais numerosos! Nem se Albert Einstein tivesse vivido em tempos tão remotos teria dado grandes contribuições. As estratégias que nos fizeram avançar têm muito mais a ver com o coletivo que com a individualidade.

Dentre essas estratégias, a COMUNICAÇÃO foi imprescindível. Paradoxalmente, são         os equívocos nas interpretações interpessoais que nos levam a problemas.  A fala se iniciou apenas no último terço da nossa existência. Nos primeiros dois terços, não tínhamos ossatura e musculatura para articularmos as palavras, o que nos obrigava a nos entender por gestos.

Entretanto, temos sido negligentes na leitura não verbal. Ademais, fazemos julgamentos em tempo integral. Externamos o que pensamos/sentimos a respeito dos outros por adjetivos (bons ou ruins) que, na verdade, são rótulos! Ele é inteligente/burro, ela é feia/bonita, fulano é ágil/lento… Esses adjetivos são printados a partir da nossa própria curva de normalidade, ou seja, pelas nossas experiências de vida, que formam nossas crenças e modelos de mundo. Trocando em miúdos, se minha esposa não me dá o carinho que espero, ela é fria, calculista e independente. Se, ao contrário, me pede mais carinho do que eu aprendi a dar, ela é pegajosa, grudenta, chiclete!

Nossos julgamentos nem precisam ser verbalizados, são expressos        pela linguagem corporal (feições, gestos, comportamentos). Ao avistar um colega “chato”, é natural que nos fechemos, cruzando os braços, apertando os lábios, nos afastando ou apontando os pés em direção à porta. Sob o aspecto profissional, acontece o mesmo! Com um cliente que demande mais atenção, que esteja sofrendo com a doença de seu pet ou que esteja apressado ou lento demais.

Junte-se a isso os comportamentos que desenvolvemos ao longo da vida como esposas que esperam que seus maridos adivinhem que algo está errado no relacionamento. Ai vão algumas dicas de como melhorar o processo de comunicação:

– peça com afirmações positivas! “Por favor, preciso que você chegue cedo amanhã” ao invés de “por favor, não chegue tarde amanhã!”

 – seja ESPECÍFICO! Nada de “me permita ser eu mesmo” para não colocar seu interlocutor na defensiva! “Por favor, aja dessa forma para que eu me expresse melhor!

– seja sincero e respeitoso na forma de se comunicar

– alinhe sua linguagem verbal aos seus gestos e postura para transmitir sinceridade

– faça menção ao COMPORTAMENTO, nunca à pessoa! “Você é desorganizado” cria bloqueio imediato. “Por favor, guarde as coisas depois de usar” é muito mais positivo!

– mencione o IMPACTO que o COMPORTAMENTO dele(a) causa. “Quando você se atrasa, compromete o projeto”.

E também: OBSERVE atentamente o que seu interlocutor fala.    Exercite-se em bloquear os julgamentos que aparecerem. Atente-se para as EMOÇÕES que as palavras dele(a) causam em você (boas ou ruins). Então, conecte-se consigo mesmo e perceba quais NECESSIDADES suas não estão sendo atendidas a partir do que ele(a) fala. Só, então, formule seu PEDIDO de forma clara e positiva.

O exercício de atrasar seus instintos em responder a uma provocação faz de você um ser humano muito melhor!

“… quem modera as palavras, possui o conhecimento.” (Prov. 17:27)

Kaleizu Rosa – Médico-veterinário graduado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), mestre em Fisiologia pela Faculdade de Medicina da USP, doutor em Ciências pela USP e master coach. É facilitador de treinamentos em Inteligência Emocional e Coaching e um dos facilitadores do Projeto Sobre(o)Viver. Para saber mais sobre o autor, navegue por www.kaleizurosa.com.br ou siga o perfil dele nas redes sociais: @kaleizu_rosa.

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