O Burnout às nossas portas

Por Kaleizu Rosa

Pergunte a estudantes de Medicina Veterinária o por que de escolherem essa profissão e a resposta vai ser uníssona: pelo amor aos animais! Aprofunde a conversa e questione o que esperam viver no mercado de trabalho: estarem cercados de troca afetiva com pacientes e clientes, reconhecidos pela importância social da profissão!

O cenário, no entanto, é bem distante dessa visão romântica, com índices crescentes de esgotamento emocional, estresse e números alarmantes de tentativas de suicídio – algumas chegando às vias de fato – condições associadas à Síndrome do Burnout.

O burnout é descrito como uma doença relacionada ao trabalho pelo Ministério da Saúde desde 1999, com causas ainda controversas. Alguns estudiosos defendem a teoria da “fadiga da compaixão” (excesso de envolvimento emocional do profissional com o paciente/tutor), enquanto outros advogam uma teoria alternativa, a “dissonância emocional”, na qual o processo emocional como um todo está desregulado.

Em outras palavras, os primeiros acreditam que o excesso de empatia seja o problema, enquanto os últimos acham que, por dificuldade em decifrar as próprias emoções, o indivíduo entra em esgotamento na relação com o cliente.

 Vários fatores associados ao nosso ambiente de trabalho são a matéria-prima do burnout: jornada de trabalho extensa, baixa remuneração, casos clínicos com desfechos desfavoráveis, falta de reconhecimento, relações conflituosas com clientes, atendimentos emergenciais, alta complexidade das atividades, expectativas desiguais entre profissionais e empresa, gestão de carreira, questões éticas (relacionamento com colegas) e questões morais, como a eutanásia.

Algumas personalidades e estilos de vida tornam o indivíduo mais suscetível ao burnout, como tendências perfeccionistas, metas irrealistas, autoestima nos extremos (muito alta ou muito baixa) e pessoas que se veem como responsáveis pelo bem-estar dos outros. Por esse motivo, a busca pelo autoconhecimento é fundamental para evitar o processo. Entender seus pontos fortes e suas limitações permite que o indivíduo tome decisões coerentes e não se deprecie diante de revezes.

A síndrome pode ser percebida inicialmente com sinais de exaustão física, mental e/ou emocional. De repente, aquele trabalho que você ama e com o qual sonhou já não aparenta ser tão entusiasmante. Sua energia para ele já não é tão grande, você fica irritadiço, sente-se cansado, tem esquecimentos e dificuldade de concentração.

Com o tempo, você se sente desapontado e desiludido, mas, à medida que tenta equacionar as coisas, a frustração só aumenta. Isso faz com que você questione até mesmo suas habilidades, competências e conquistas profissionais. Chega atrasado para o trabalho, sem vontade, aumenta o tempo do cafezinho e demora mais para executar tarefas rotineiras.

Seu estado emocional começa, então, a atrapalhar suas relações à medida que suas críticas sobem de tom pelo excesso de negatividade. Em última instância, você tem uma sensação de total desamparo, vê o trabalho como peso, tem fadiga crônica, vontade de sumir – e é aí que aparecem os pensamentos suicidas!

COMO RECONHECER

Cansaço, esgotamento, sensação de sobrecarga, humor negativo frequente, irritabilidade constante, falta de vontade e/ou energia para trabalhar, preocupação crônica com o trabalho, desmotivação e deterioração nas relações de trabalho podem indicar exaustão profissional e requerem cuidados.

COMO PREVENIR

As necessidades do ser humano podem ser divididas em quatro níveis, além das básicas: sustentabilidade, segurança, autoexpressão e significância. Para cada uma delas, há uma forma de reciclar a energia, respectivamente: físico, emocional, mental e espiritual.

É fundamental cuidar do seu estilo de vida, considerando suas necessidades de alimentação balanceada, descanso, férias, sono de qualidade e meditação para suprir o nível físico; otimismo, engajamento, sentir-se desafiado e em paz, para o emocional; incentivar a imaginação, criatividade, sistematização e método para manter o foco e suprir o nível mental; e, por último, trabalhar alinhado aos seus valores, com olhar caridoso ao seu próximo, junto à oração para buscar a presença de Deus para suprir o espiritual. Aliás, você sabe quais são os seus valores?

Aos primeiros sinais, procure ajuda profissional, treinamentos, coaching e auxílio espiritual. Não queira bancar o herói. Afinal, ninguém melhora sozinho e, desta forma, você possibilita que outra pessoa pratique em você o desprendimento e a doação, fundamentais para a felicidade do ser humano!

Bibliografia sugerida:

  • Moses L, Malowney MJ and Boyd JW. Ethical conflict and moral distress in veterinary practice: a survey of North American veterinarians. J Vet Intern Med. 2018 Nov;32(6):2115-2122.
  • Stoewen DL. Burnou: Prescription for a happier healthier you. Can Vet J. 2018 May;59(5):537-540.
  • Tei S et al. Can we predict burnout severity from empathy-related brain activity? Transl Psychiatry. 2014 Jun 3;4:e393.

Kaleizu Rosa – Médico-veterinário graduado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), mestre em Fisiologia pela Faculdade de Medicina da USP, doutor em Ciências pela USP e master coach. É facilitador de treinamentos em Inteligência Emocional e Coaching e um dos facilitadores do Projeto Sobre(o)Viver.

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