Saúde mental e trabalho: estresse, síndrome de burnout e suicídio em médicos-veterinários

Por Christian Kenji Ollhoff, Claudia Lucia Menegatti* e Cloves Antonio de Amissis Amorim*

Revisão aborda fatores relacionados à saúde mental do médico-veterinário, especificamente sobre a intrincada relação entre saúde mental, trabalho e comportamento suicida

Este artigo é uma revisão sobre fatores relacionados à saúde mental do médico-veterinário, especificamente, a intrincada relação entre saúde mental, trabalho e comportamento suicida.

O sofrimento psicológico, bem como os transtornos relacionados ao trabalho, pode ser objeto da psiquiatria, da psicologia e da medicina do trabalho. Nessas três áreas, concorda-se que a saúde mental, segundo definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), não é simplesmente a ausência de doença, mas um estado de completo bem-estar físico, mental e social (CAMARGO; NEVES, 2004).

De acordo com Silva Filho e Jardin (apud CAMARGO; NEVES, 2004), a psicopatologia do trabalho tem como objeto de estudo a dinâmica geradora de sofrimento psíquico vinculada ao trabalho. Sancionado em 1999, o Decreto nº 3.048, do Ministério da Previdência e Assistência Social, apresenta uma lista de doenças relacionadas ao trabalho, entre elas, a síndrome de burnout, com o código Z.56.3.

As estimativas dos custos do estresse no trabalho são alarmantes, mas, consoante Tamayo, Lima e Silva (2004), muito mais alarmantes são as estimativas do custo humano, os prejuízos sobre as pessoas, sua saúde, potencial, autoestima e aspirações à felicidade. Destacam que os esforços realizados para a gestão das reações de estresse nas organizações são ainda insatisfatórios e apresentam duas deficiências estruturais básicas: primeiro, eles visam mais à diminuição dos efeitos do estresse do que à redução da presença de fatores estressores no trabalho e, segundo talvez como consequência do primeiro, as intervenções promovidas por esses programas tem visado ao indivíduo e não à organização (TAMAYO; LIMA; SILVA, 2004, p. 77).

Em 2012, Nardi e Raminger alertaram que as formas como as políticas públicas se debruçam sobre o tema da saúde mental dos trabalhadores remetem às clássicas questões que definem como se operam essas políticas, ou seja, quem obtém o quê, quando e como. Assim, ao pensar na promoção da saúde mental dos trabalhadores, devemos nos perguntar se essa é uma questão politicamente importante para o estado e qual compreensão de saúde mental guia as práticas de governo. Com uma lucidez extraordinária, esses autores afirmam que “os campos da saúde mental da saúde do trabalhador são arenas tensas de disputa política e epistemológica” (NARDI; RAMINGER, 2012, p. 375).

O estresse laboral se refere às interações que pertencem a essa arena de disputas concernentes ao ambiente de trabalho. Pensando no caso do médico-veterinário, há estressores ocupacionais próprios desse ambiente, como a eutanásia, cuja decisão depende de uma avaliação do profissional, a despeito de seus próprios sofrimentos (LLOYD; CAMPION, 2017). Isso confirma que as características desse ambiente de trabalho podem levar à síndrome de burnout.

Considerada um processo crônico de estresse, a síndrome de burnout é composta por três vertentes: exaustão emocional, despersonalização e diminuição da realização pessoal no trabalho (MASLACH; JACKSON apud WILL et al., 2018). A primeira vertente diz respeito à ausência de recursos emocionais para lidar com situações presentes no contexto laboral e um sentimento de esgotamento. O segundo componente, despersonalização, é o desenvolvimento de sentimentos e comportamentos negativos com as pessoas do ambiente de trabalho. As pessoas passam a perceber a si mesmas e as demais por meio de uma visão desumana, objetificada. A última vertente se refere à autoavaliação pessimista e negativa, como também descrença do sentimento de competência e da capacidade no âmbito laboral.

Gracino et al. (2016), em revisão sistemática realizada de 2005 a 2015, localizaram 57 artigos sobre a saúde física e mental de profissionais médicos e concluíram que os estudos analisados destacavam o esgotamento profissional (síndrome de burnout) como a principal afecção daqueles profissionais. Ressaltaram ainda que a condição mental mais abordada nesses artigos foi a síndrome de burnout, sendo definida como uma síndrome patológica resultante do estresse ocupacional prolongado.

Silva, Barbosa, Moser e Amorim (2017) analisaram os componentes dessa síndrome presentes em 130 professores universitários. Os dados foram levantados por meio de um questionário composto por 127 questões, sendo 113 questões fechadas e 14 questões abertas. O instrumento ficou disponível durante três meses para acesso on-line dos interessados. Entre os participantes que preencheram o instrumento, 49% afirmaram que no trabalho sentiam-se com força e vigor, bem como avaliavam que no seu ambiente de trabalho havia respeito. Também, 67% relataram se identificar com o trabalho e 58%, que se realizavam profissionalmente. Quanto às queixas físicas, 33% eram hipertensos, 24% apresentavam colesterol elevado e 23%, cefaleia ou enxaqueca. Finalmente, 55% acreditavam que a profissão estava sendo fonte de estresse.

Entre os médicos-veterinários, a empatia e sensibilidade em relação ao sofrimento dos animais são apontadas como fatores relacionados ao burnout (LLOYD; CAMPION, 2017), assim como a alta interferência do trabalho em sua vida pessoal, conflitos éticos e eutanásia, e a administração de situações de emergência com alta disponibilidade de tempo para o trabalho (HANSENZ; SCHINS; ROLLIN, 2008).

O médico-veterinário, no contato com animais e seus tutores, pode se sentir contagiado pelo sofrimento deles. Isso aumenta o risco desses profissionais tanto em relação ao burnout quanto à fadiga por compaixão, que é o esgotamento crônico atribuível ao excesso de sentimentos de compaixão, por testemunhar o sofrimento de outrem (FIGLEY, 2002 apud BARBOSA; SOUZA; MOREIRA, 2014). Em função do extremo sofrimento associado a essas condições, a saúde mental do médico-veterinário pode ser prejudicada, tendo como consequência o aumento do risco de comportamentos suicidas entre os profissionais.

O suicídio é observado nas diferentes épocas da história humana. Segundo a OMS (2017), em 2015, cerca de 800 mil pessoas se suicidaram e essa foi a segunda causa principal de morte entre as idades de 15 e 29 anos. No Brasil, foram registrados, entre os períodos de 2011 e 2015, 55.649 óbitos por suicídio (BRASIL, 2017). Ainda de acordo com a OMS (2000), os médicos-veterinários estão incluídos entre os grupos ocupacionais com taxas mais altas de suicídio quando comparados à população geral. As explicações desse dado ainda não são claras e possivelmente se relacionam ao acesso a meios letais, pressões no trabalho, isolamento social e dificuldades financeiras.

Médicos-veterinários são vistos como profissionais benevolentes, que cuidam de animais doentes e oferecem suporte aos clientes. Há o risco de não se perceber a necessidade que tais profissionais têm de suporte emocional, o que é incompatível com as estatísticas, que mostram que cirurgiões veterinários têm altos índices de suicídio (KAHN; NUTTER, 2005; MELLANBY, 2005). Veterinários apresentam níveis maiores de depressão, estresse e burnout que a população geral (HATCH et al., 2011). Johnson et al. (2005) verificaram que, dentre 26 profissões, veterinários apresentam o quinto pior bem-estar psicológico, sendo a saúde mental debilitada comum entre eles (FRITSCHI et al., 2009).

Profissionais menos experientes (menos de cinco anos de prática) apresentam saúde mental pior que seus colegas mais experientes (dez ou mais anos de prática) (NETT et al., 2015). Gardner e Hini (2006) encontraram que, de 849 veterinários, 16% pensaram seriamente sobre suicídio e que aproximadamente 2% o tentaram. Em uma pesquisa feita por Skipper e Williams (2012), com 701 veterinários, 66% admitiram ter tido depressão, 24% já consideraram suicídio e somente 11% afirmaram que suicídio é uma preocupação significativa para eles. Há estudos indicando que o risco de suicídio em médicos-veterinários é três vezes maior quando comparado à população geral (FRITSCHI et al., 2009; PLATT et al., 2012).

Ao analisar a morte de 11.620 médicos-veterinários nos Estados Unidos, entre os anos de 1979 e 2015, Tomasi et al. (2019)encontraram que 398 mortes foram por suicídio, sendo 326 (82%) do sexo masculino e 72 (18%) do sexo feminino. Apesar da maior taxa de suicídio entre os homens veterinários, as mulheres veterinárias, em geral, apresentam escores piores nas questões de saúde mental (HEATH, 2002; REIJULA et al., 2003), assim como possuem maior índice de depressão e ideação suicida (FAIRNIE, 2005; GARDNER; HINI, 2006; FRITSCHI et al., 2009).

Sobre as relações entre estresse laboral e suicídio, no estudo de Reijula et al. (2003), o burnout encontrou-se em 1,7% da amostra de médicos-veterinários, enquanto, no estudo de Hansez et al. (2008), a taxa foi de 14,4%. Entre os veterinários, os estressores laborais incluem longas jornadas de trabalho (GARDNER; HINI, 2006; MEEHAN; BRADLEY, 2007), relações com clientes (HANSEZ; SCHINS; ROLLIN, 2008), consultas e cirurgias (MEEHAN; BRADLEY, 2007) e exposição à eutanásia e conflitos éticos (WITTE; CORREIA; ANGARANO, 2013; SCOTNEY; MCLAUGHLIN; KEATES, 2015). Esses fatores não só influenciam negativamente o bem-estar físico/mental do veterinário, como também suas relações familiares (MEEHAN; BRADLEY, 2007; HANSEZ et al., 2008).

Outros fatores de risco para o suicídio de veterinários são as características de personalidade e acesso a meios letais. Em relação à personalidade, pessoas com níveis maiores de neuroticismo e conscienciosidade estão mais propensas a sofrer com o estresse (BREZO; PARIS; TURECKI, 2006; TYSSEN et al., 2007; DAWSON; THOMPSON, 2017). Como veterinários preferem trabalhar com animais, isso pode levar ao isolamento social e aumentar o risco de depressão (BARTRAM; BALDWIN, 2008; STOEWEN, 2015). Sobre os meios de suicídio, envenenamento é o método mais comum entre esses profissionais (KELLY; BUNTING, 1998; PLATT et al., 2012), principalmente com agentes anestésicos (STERKEN et al., 2004). Platt et al. (2012) indicaram que os fármacos utilizados para o envenenamento são adquiridos, em sua maioria, no trabalho, configurando situação de risco aos veterinários (PLATT et al., 2010,2012).

Médicos-veterinários podem sofrer estigma quando procuram cuidados para sua saúde mental (STOEWEN, 2015; FINK-MILLER; NESTLER, 2018), pois são vistos como cuidadores e não pacientes (STOEWEN, 2015), sendo desencorajados a procurar tratamento adequado (BARTRAM; BALDWIN, 2010).

A prevenção contra o suicídio é uma tarefa interdisciplinar e social. Quando há um grupo com maior risco, deve ser dirigida prioritariamente a ele, criando condições para a abertura sobre o assunto e viabilização da assistência, mesmo em um campo repleto de tabus (BOTEGA, 2007). No caso dos veterinários, faz-se necessário promover o resgate das sensações de bem-estar relacionadas a cuidar de outros, ou seja, do exercício saudável da compaixão.

Destaque-se que as instituições são responsáveis por cuidar do bem-estar dos veterinários (ALLISON et al., 2016) e que o investimento na saúde do trabalhador pode trazer benefícios, como melhor produtividade (GOETZEL; OZMINKOWSKI, 2006). Nesse sentido, a construção de espaços de escuta no ambiente de trabalho dos veterinários auxiliará, por exemplo, após eventos emocionalmente estressantes em seu cotidiano (LLOYD; CAMPION, 2017). Esses espaços também podem atuar para desenvolver estratégias de enfrentamento, resiliência e competências emocionais, tão necessárias como medidas protetivas de saúde mental para médicos-veterinários.

*O artigo técnico dos autores Christian Kenji Ollhoff, Claudia Lucia Menegatti* e Cloves Antonio de Amissis Amorim* (*palestrantes do XXIV Seminário de Educação da Medicina Veterinária, realizado nos dias 6 e 7 de maio de 2019, em Brasília (DF)) consta da Revista CFMV edição nº 80, na qual é possível consultar as Referências Bibliográficas aqui:

http://certidao.cfmv.gov.br/revistas/edicao80.pdf

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