E quando nós mesmos construímos um cenário de Burnout em nossas clínicas

Por Sérgio Lobato

“Como assim Sergio?” Pode parecer estranho falar de Burnout fora do contexto do viés comportamental e psicológico ao qual estamos acostumados não é mesmo? Mas vamos explicar o por que dessa pergunta nesse momento tão preocupante para a Medicina Veterinária e como podemos mudar esse cenário.

Quantos de nós, médicos-veterinário, já nos sentimos superatarefados, cheios de problemas para resolver no dia a dia de clínicas e hospitais, absorvendo problemas de relacionamento da equipe, crises com clientes, preocupações com boletos, contas a serem pagas e com o desenrolar do quadro clínico de nossos pacientes?

Muitas preocupações não é mesmo? E existe ainda um aspecto que todos os dias nos coloca em um estado de tensão, preocupação e uma certa irritabilidade, principalmente quando somos penalizados por desconhecer, descuidar ou negligenciar as regras que nos são cobradas para a construção, manutenção e organização de nossos estabelecimentos veterinários pelos órgãos de fiscalização.

Como promotor e defensor do conceito de Gestão Técnica, vejo os colegas se preocupando excessivamente com a carga de exigências que parecem surgir de uma hora para outra às suas portas, e os vejo muitas vezes extremamente estressados com o fato de simplesmente terem que modificar fluxos, preencherem documentos e realizar outras atividades “que não são Medicina Veterinária, afinal!”.

E se sentem ressentidos, agressivos, irritados. Ou seja, construímos com nossa própria atitude uma situação que nos coloca na rota triste do sentimento de descontentamento continuado e de desencanto que nos conduz ao temido Burnout. Posso, então, dar uma dica para reduzir esses momentos de stress em que nos sentimos a qualquer momento passíveis de uma fiscalização?

Dedique um tempo para organizar sua clinica, sem pressa, sem o stress da cobrança de ter que fazer tudo “a toque de caixa” porque você tem um prazo para se regularizar. Planeje o passo a passo dessa organização como se você fosse uma “Marie Kondo Veterinária”, a musa da arrumação japonesa que usa e abusa de métodos de organização.

Elimine da sua lista de possíveis causas de stress e preocupação a Gestão Técnica de sua clinica começando pela organização da rotina e dos espaços, dos documentos e dos termos, do fluxo operacional e da sua estrutura física.

Farei uma sugestão para que você use como um guia para começar esse processo:

Segunda-feira Cheque sua estrutura física, verifique principalmente sua destinação de resíduos sólidos, locais de armazenamento de expurgo.  
Terça-feira Verifique se todos os seus termos de autorização estão corretos, veja seus contratos de prestação de serviços, veja seu livro de RT, o livro de entrega de exames  e documentos da recepção.  
Quarta-feira Verifique iluminação, situação hidráulico, refrigeração, condições de mobiliário como mesas e canis de internação.  
Quinta-feira Faça controle de todo o estoque de medicamentos, sejam eles controlados ou não, veja sua dispensação, sua organização e prazos de validade, escrituração e veja ainda insumos de uso, checando se as almotolias e outros reservatórios estão de acordo com a legislação.  
Sexta-feira Verifique as condições de trabalho de sua equipe inteira, conferindo o uso de EPIs, o treinamento de uso de materiais e mobiliário, e ainda as condições de ergonomia e segurança no trabalho.

Exercer a Medicina Veterinária é um direito que adquirimos após nossos anos de estudo, e um privilégio especial por termos escolhido a melhor profissão do mundo!

Mas existem regras, existem normas, e conhecê-las é o melhor caminho para exercer nossa rotina de trabalho de forma tranquila, segura e certificada. Aceitar essa realidade é fundamental!

Quando fechamos os olhos para essa realidade é o momento em que abrimos as portas para a construção desse auto-burnout que citei no título! Assumir nossa parcela de responsabilidade é o caminho para a construção de um momento novo em nossas carreiras, um momento de segurança, que nos distancie dessas terríveis estatísticas atuais sobre Burnout na Medicina Veterinária.

Pense nisso! Vamos arrumar nossas clínicas?

Sérgio Lobato – Médico-veterinário formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Pós-graduado em Marketing, Estratégia e Docência do Ensino Superior pela UNESA. Autor do Manual de Responsabilidade Técnica para Clínicas e Petshops. Palestrante e Consultor, atuando em todo o Brasil e Exterior. É facilitador do Projeto Sobre(o)Viver do CRMV-RJ.

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