Memória

Por Monica Santos

Os constructos científicos a respeito da memória variam entre si, mas alguns conceitos básicos são unânimes como, por exemplo, a sua definição:

Memória é uma função neuropsicológica que abarca vários processos onde o indivíduo inicialmente adquire informações, depois as armazena e resgata essas informações quando precisa.

Normalmente, quando falamos dememória, logo vem àmenteumadestas frases: “Ah, eutenhoumaótima memória” ou “Minha memória anda péssima ultimamente”.

Na verdade, existem vários tipos de memória porque cada coisa que aprendemos, e de que lembramos, é processada em diferentes áreas do cérebro, para entender melhor todos esses tipos de memórias, me acompanhem nas historinhas a seguir.

Pedro – “Mãe, qual é o telefone da Pizzaria da Mamma? Quero pedir nosso jantar.”

Mãe – “É 3275-9170.

Pedro – “Obrigado, vou ligar agora”.

O Pedro liga, pede a pizza para o jantar, desliga o telefone e já não lembra mais qual era o número do telefone. A essa “rápida memória” de armazenar o número do telefone para somente discar e depois esquecer, chamamos de Memóriade Trabalho (ou MemóriaOperacional). Elaéumamemóriaquearquiva temporariamente uma informação. É uma memória de curto prazo – a informação somente é necessária para uma determinada operação mental, sendo, logo em seguida descartada.

Já o outro tipo, na qual as informações não são descartadas, chamamos de Memórias de Longa Duração e são subdivididas em vários tipos, por exemplo, a utilizada por João ao contar sua última viagem para o amigo Carlos: “Que viagem linda que eu fiz a Paris, na França! Visitei lugares famosos como Conciergerie, ondeMariaAntonieta ficou presa. Nanoitedo aniversário daRenata, nós fomos aum restauranteflutuante no Sena e lá eu a pedi em casamento.”

Nesse relato, João usa dois tipos de Memórias de Longa Duração.

Ao falar“Visitei lugaresfamososcomoConciergerie, onde MariaAntonieta ficoupresa” ele usou aMemória Semântica, que é aquela memória do nosso conhecimento de História, de Geografia, do significado das palavras, do nosso conhecimento geral.

Quando diz “Na noite do aniversário da Renata, nós fomos a um restaurante flutuante no Sena e eu a pedi em casamento”, ele está usando a MemóriaEpisódica,que é aquela memória que diz respeito à nossa vida particular num dado momento cronológico – quando casamos, quando fomos pra faculdade, quando nossos filhos nasceram, etc.

E em relação ao futuro nós também temos memória, sabiam?

Imaginem a Carla. Ela está dirigindo para o trabalho de manhã cedo e lembrando o que vai ter que fazer durante o dia:

“Hoje tenho uma reunião às 9h, às 10h eu tenho um conference call, marquei manicure na hora do almoço e tenho que entregar o relatório até as 16h.”

A essa memória do que vamos ter que fazer no futuro, chamamos de Memória Prospectiva. Pode ser simples como “tenho que tirar o bolo do forno em 20 minutos”, ou mais complexa como a agenda da Carla.

Falando em bolo, às vezes quando sentimos o cheiro gostoso de bolo nos lembramos imediatamente da casa da vó, não é mesmo?

Essa memória se chama Priming e é evocada por estímulos sensoriais, sons, imagens, cheiros. Na sua maioria, essas memórias são resgatadas de forma inconsciente (como no caso do cheiro do bolo que sentimos e, imediatamente, nos lembramos da casa da vovó). Outro exemplo muito comum de Priming diz respeito àmúsica: émuito comum, ao ouvirmos umadeterminada música, nos lembrarmos imediatamente de alguém ou de algum lugar.

A esse tipo de memória também podemos dar uma “forcinha” e, assim, resgatá-la mais facilmente. Por exemplo, quando não nos lembramos de uma canção toda e, ao citarmos o nome da canção, alguém começa a cantarolar e, então, toda a música vem à tona; são memórias induzidas por pistas ou dicas.

É esse tipo de memória evocada pelo escritor Marcel Proust ao longo da sua clássica obra Em Busca do Tempo Perdido quando o narrador se dá conta de que as sensações dos acontecimentos cotidianos, como o som de uma colher no prato, são capazes de acionar a memória e decide reconstruir o passado a partir da recriação artística literária, perguntando-se, por exemplo, por que sofrera escutando determinada música.

Nesse exemplo em que o som de uma colher no prato é capaz de acionar a memória, Proust nos remete ao conceito de Memória Afetiva, tão bem ilustrada pela expressão da língua portuguesa “saber de cor”. A palavra “cor”, nesse caso, vem do latim e significa “coração”; ou seja, dizemos “saber de coração” certas coisas. O mesmo ocorre na língua inglesa (“I know by heart“) e na francesa (“Je sais par coeur“). Esses exemplos linguísticos nos mostram que a gente decora mais facilmente as coisas se elas tocarem nos nossos corações.

Voltando à colher de Proust, o ato mecânico decomer uma sopa com colher constitui, em si, o uso de outra memória: a chamada Memória de Procedimento, que é aquela utilizada quando fazemos algo “no automático”, como dirigir ou andar de bicicleta. No dia a dia, já não pensamos mais em como fazer essas coisas – apenas fazemos, pois já temos na memória como proceder.

Como o assunto é memória, não podemos esquecer de outra palavrinha: amnésia.

A amnésia é uma perda total ou parcial de recordar essas memórias citadas acima. Existem várias causas para a amnésia como demências, traumatismo craniano, AVCs, encefalites, tumores cerebrais, alcoolismo, parada cardíaca e etc.

O que vai diferenciar o tipo de amnésia são basicamente duas coisas: a causa (doença, acidente, etc.) e a região do cérebro que foi afetada. Mas, de uma forma bem ampla, podemos colocar as amnésias em dois grupos:

A Amnésia Retrógrada – a pessoa não consegue lembrar as coisas antes de um acidente ou de uma doença por exemplo, só consegue fazer o registro e lembrar das coisas depois.

A Amnésia Anterógrada que já é o contrário, a pessoa não consegue mais aprender algo novo e, portanto, não ter mais memória das coisas após um acidente, ou de uma doença por exemplo.

Além disso, as amnésias podem ser transitórias ou permanentes e algumas se destacam, como Amnésia Traumática, Amnésia Dissociativa, Síndrome de Korsakoff, Amnésia Global e Amnésia Global Transitória.

Para finalizar é importante ressaltar duas coisas:

1 – Ao longo da vida, temos as perdas de memória esperadas e as perdas patológicas. Para identificar qual é qual, é preciso fazer uma avaliação neuropsicológica. Nessa avaliação, recolhemos dados por meio das entrevistas com o pacientee com os familiares eaplicamos testes quevariam deacordo com o queestamos investigando para sabermos qual é a melhor intervenção para cada caso.

2 –Lembram do início do texto,em que foiapresentadaadefinição dememória? –“… o indivíduo inicialmente adquireinformações, depois as armazena e resgataessas informações quando precisa”. Parauma memória ser formada, é necessário que a pessoa adquira a informação. Nos tempos atuais, com tantos estímulos como TV, Internet, redes sociais, e-mails, etc., o que tem ocorrido com frequência é a falta de foco e falta de atenção; a pessoa não presta atenção, não adquire a informação e, portanto, não cria a memória. Nesse caso, não é que a pessoa esteja com falta de memória: ela não formou a memória porque não armazenou a informação.

A falta de atenção ou falta de foco podem ser causadas, por exemplo, por estresse, ansiedade, depressão e insônia. Aliás, dormir bem é absolutamente fundamental para consolidar a memória. Dormir permite ao cérebro guardar memórias importantes.

Pesquisas publicadas no Journal of Neuroscience (https://www.jneurosci.org/) afirmam, dentre outras coisas, que “dormir ajuda o cérebro na tarefa de selecionar quais lembranças guardar”. Eles explicam que o córtex pré-frontal do cérebro seleciona as memórias mais relevantes enquanto estamos acordados, e outra região, o hipocampo, as consolida durante o sono.

Assim, se não dormimos bem, não consolidamos as informações adquiridas durante o dia. Dormir é fundamental para consolidar memórias.

Então, voltamos à velha máxima – atividades físicas, qualidade de vida, qualidade de alimentação e qualidade de sono ajudam em tudo, inclusive na memória.

Bibliografia

Malloy-Diniz, Leandro F. Avaliação Neuropsicológica / Leandro F. Malloy-Diniz …[et al.].– Porto Alegre : Artmed, 2010

Izquierdo, Ivan. Memória. 3 ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.

Monica M. dos Santos – Neuropsicóloga, psicóloga clínica e professora. É facilitadora do Projeto Sobre(o)Viver do CRMV-RJ.

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